Literando || E esse cabelo?

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Meu cabelo é ondulado. Tem fios finos, consistentes e lindamente ondulados na parte debaixo; também tem fios lisos e sem frizz na parte da frente; e tem os famigerados fios que, sabe Deus por que, insistem em não ter forma. São estranhamente lisos, volumosos, com ondas indefinidas e que ficam, pasmem!, bem na parte de cima e atrás da minha cabeça. Tais fios resultaram em um cabelo, que por muito tempo, não soube ser cuidado.

Meu cabelo é cacheado, tipo 3C (as cacheadas irão entender essa do que estou falando). É volumoso e curto, inicia-se levemente liso e a partir do segundo centímetro torna-se lindamente cacheado. Cacho que durante anos ficou escondido entre relaxantes e permanentes, preciso dizer que identifico-me com Djamila?

Esse post é para falar sobre o livro “Esse Cabelo”, da autora Djaimilia Pereira de Almeida, cedido pela editora Leya. O livro é, essencialmente, sobre a história do cabelo de Djaimilia, sobre como o cabelo dela influenciou suas escolhas, sobre quem ela gostaria de ser e sobre a forma como ela enxerga sua própria vida. Por isso, nada mais justo que escrever esta resenha com quatro mãos e duas opiniões.

A Djaimilia se apega muito a memória sensorial ao se lembrar do cheiro do produto de alisamento em seu cabelo, ou do cheiro da cozinha da casa de seus parentes, quando as tias, avós ou vizinhas estavam reunidas, ou do cheiro ruim das ruas da periferia portuguesa. Ela se atrela muito a essas memórias e, por isso, seu livro é repleto de um vai e vem no tempo, cuja única função é ilustrar para o leitor um determinado acontecimento ou situação.

“Esse Cabelo” é uma autobiografia oriunda do cabelo de Djaimilia, ao relembrar um momento, o cabelo  estava com um penteado,  corte ou estrutura. O que surpreende é ela consegue lembrar de tudo exatamente, mas se você não for uma cacheada ou crespa não entenderá alguns procedimentos químicos e penteados relembrados pela autora.  Procedimentos que vivi a partir dos meus dez anos e parei aos 22 com um lindo corte “joãozinho” e naquele instante a libertação de um padrão – “não pode ter volume”, “cacho bonito é definido”, “cabelo bonito tem que ser grande” e todos esses blá-blá-blá – imposto para os meus cachos.

Pessoalmente, eu também passei por uma fase bem difícil onde não me via com o cabelo que eu tinha. “Volumoso demais”, “indefinido”, “estranho”, “não gosto dessa cor”. Todas essas definições me levaram ao caminho da química: já fui loiríssima, loira escura, já pintei de preto, ruivo, roxo, voltei  para o loiro claríssimo, castanho claro, usei minha cor natural (que é Loiro acinzentado), até que voltei pro ruivo por muito tempo e, agora, estou no marsala. Já fiz progressiva (aquela com a quantidade absurda de formol), já fiz relaxamento, escova inteligente, escova isso ou escova aquilo. E hoje, bom, uso chapinha pouquíssimas vezes; secador só em dias úmidos, frios ou quando quero um cabelo liso; baby liss é para as baladas; e, pasmem, hoje em dia não me importo se parece que acabei de acordar, ou se as ondas estão bonitinhas. Uso assim mesmo. E, não tem problema nenhum em admitir: gosto de tintas de cabelo e não gosto do meu cabelo loiro acinzentado. E essa é a lição que tiro do livro Esse Cabelo.

Chegamos a conclusão que “Esse Cabelo” é uma leitura um pouco complicada se você não está acostumado ao português de Djaimilia. Vale salientar o vai-e-vem no tempo que a autora faz. Nunca sabemos onde, quando, como  e porque chegamos naquele tempo e espaço; isso dificulta a leitura, pois em determinados momentos, identificar o que é lembrança e o que é presente, torna- se cansativo. A ideia geral é sensacional, criar uma autobiografia partindo das suas lembranças capilares é extraordinário, principalmente se você se identifica com  autora,  apreciará boas memórias.

Formada em gastronomia por uma universidade paulista, especialista em jornalismo cultural e uma artista por natureza. Apaixonada por livros, séries e cinema desde sempre.

Nina Xaubet – que já escreveu publicações em Cinefilando.


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